5.3.12

QUAL O CUSTO ALUNO: USP - UNESP e UNICAMP?


Estive neste final de semana na UNICAMP, festa e cerimônia de graduação, onde minha sobrinha se formou engenheira elétrica.  Como sempre digo neste espaço, sou “especialista em nada” – e fiquei a pensar com meus botões: quanto deve custar ao contribuinte, formar um aluno nesta universidade estadual, considerada referência no país?

Consultei o “oráculo” – Google, e vocês não imaginam quanto foi trabalhoso descobrir um valor aproximado, embora as verbas sejam públicas, as informações não são tão públicas assim, pois me parece um segredo de polichinelo, a grande maioria dos artigos que encontrei, falava, mas não dizia, era, mas não era muito, então encontrei numa publicação da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), no Jornal da Ciência, de fevereiro de 2012 -  Texto de Roberto Berlinck, professor do Instituto de Química de São Carlos, Universidade de São Paulo, algo que pode servir de referência, para as minha lucubrações de quem não se especializou em nada, mas que pelo menos, ao contrário do Demétrio Magnoli, admite isso.

Diz o professor Roberto Berlinck:

“O dispêndio de recursos do estado de SP em 2010 cobre o custo integral, pois o ensino nas três universidades estaduais paulistas é público e gratuito. O dispêndio estadual de SP no ensino superior público inclui, além de laboratórios de ensino e pesquisa muito bem equipados, boa infraestrutura, moradia estudantil para muitos alunos, um forte subsídio para a alimentação nos restaurantes universitários, atendimento em hospitais de excelente qualidade e um acervo de acesso livre de dezenas de milhares de revistas científicas, que inclui assinaturas institucionais e do Portal Capes de Periódicos, além de centenas de milhares de livros disponibilizados em rede para acesso por qualquer aluno do sistema estadual de ensino superior. O valor estadual aplicado nas universidades de São Paulo também inclui dispêndios consideráveis em pesquisa, adicionalmente à verba das agências de fomento Fapesp, Capes, CNPq e Finep. O dispêndio mais importante é o salário dos professores e funcionários, que corresponde a cerca de 65% do orçamento das três universidades estaduais paulistas (USP; UNESP e UNICAMP), descontando-se gastos com aposentadorias.”

No Brasil, o dispêndio/aluno do sistema público estadual de ensino de São Paulo é de longe o mais significativo dentre os estados da federação: (*)US$ 18.000/aluno em 2008. Este montante é comparável ao dos estados dos EUA com maior dispêndio desta natureza em 2010 (Wyoming e Alaska), mas que não surgem nos principais rankings de universidades. Tanto a Universidade de São Paulo (USP) como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão incluídas no ranking QSWU 2011 das 500 melhores universidades do mundo (leia aqui): a USP em 169º lugar e a Unicamp em 235º lugar. (*) a cotação do dólar em 2008 – fechou o ano em R$ 2,39 – isso nos leva a um valor de quase US$ 25.000 – o revela um valor de R$ 43.000/aluno ano.

Em cima desse valor, é que daqui pra frente, esse bloqueiro vai comentar aquilo que ficou de observações com relação à formatura dos alunos da engenharia da UNICAMP, neste final de semana.

Na turma da minha sobrinha, cuja cerimônia reuniu a engenharia elétrica e a engenharia de computação, não creio que tinha mais que 60 formandos, levando-se em conta nesse total, que “nem todos” já estejam de fato formados, pois alguns ainda carregam aquelas famigeradas DPs (dependências), que são as matéria ainda não conclusas, que o aluno participa do cerimonial de formatura, porém, ainda não está graduado, pois precisa fechar suas notas nas referidas matérias que ainda deve na grade curricular do curso.  Vamos aqui, considerar que pelo menos 15% deles, ainda tenham essa lição de casa, o número então cai para 51 formandos.

Tomando como referência o custo médio de R$ 43.000/aluno, cada um deles no decorrer de cinco anos, custou ao contribuinte, R$ 215.000 – então aquela turma de 60 alunos custou R$ 12.9 (milhões).  Não estou levando em conta aqui nesta soma, os 15% que ainda estão pendurados em suas DPs, o que muitas vezes, pode ficar mais um ano, ou dois, para fechar todas as suas matérias da grade do curso, a conta aqui, retrata como se os 60 engenheiros, já estivessem formados.  Mas vamos brincar com os números, e acrescentar 15% ao valor final, então a turma passaria a custar R$ 14.8 (milhões).

Perguntas que a sociedade “deveria fazer”, mas não faz:


1 – Qual a contrapartida que cada aluno desses dará à sociedade que bancou seus 5 anos de curso?
2 – Quantos dos 60 alunos formados nessas duas turmas, de fato, já irão direto para o mercado de trabalho?
3 – Quantos dos 60 alunos formados nessas duas turmas permanecerão no Brasil, e de fato, farão jus aos valores acima, que o Estado (leia-se, contribuinte) investiu nele como profissional?
4 – Qual a função de um vestibular, que faz uma peneira seletiva tão rigorosa, investe tanto tempo e dinheiro, para formar somente 60 engenheiros a um custo tão alto, sem cobrar absolutamente nada do aluno, em termos de contrapartida ao país que o formou?
Observem nesta tabela – que nenhuma universidade norte americana, ultrapassa o custo aluno de US$ 18.000 dólares, aqui, cabe comentar que estudos recentes, dão conta de que o custo aluno de uma universidade federal, como a UNIFESP, é de R$ 92.000 – ou seja, mais que o dobro de um aluno da UNICAMP, sob alegação de que o custo aluno é elevado, em função do curso de medicina e manutenção do Hospital de Clínicas daquela universidade (sic), onde a USP e UNICAMP, também mantém suas faculdades de medicina, seus hospitais de clínicas, e, no entanto, o valor médio é como falamos, duas vezes menores.

Quando tratei o assunto custo aluno, como um segredo de polichinelo, é que de fato, você pode pesquisar que não irá encontrar informações precisas, todas são fragmentadas, o que empobrece o debate. E sabemos o motivo “deliberado” da omissão desses números, pois onde está a formação da elite do país, melhor não ficar divulgando quanto custam as coisas, senão pode haver questionamentos indesejáveis.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que é uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, divulgou recentemente estudos Crescimento do PIB e necessidade de engenheiros e diz o estudo:  "Do lado da procura, as projeções dos técnicos mostram que, caso a economia cresça 3% ao ano, o Brasil precisará de mais 60 mil engenheiros até 2012 e mais 220 mil até 2022 em relação a 2008. Para um crescimento de 5% ao ano, entre 2009 e 2012 o País precisará de mais 85 mil engenheiros; entre 2013 e 2015, mais 90 mil, e entre 2016 e 2022, mais 320 mil. No total, entre 2009 e 2022, o estudo calculou que, para atender à demanda de 5% de crescimento ao ano, a economia usará 708 mil engenheiros. Para 7% ao ano, entre 2009 e 2012 a demanda chegaria a 130 mil engenheiros; entre 2013 e 2015, a 150 mil; e entre 2016 e 2022, a 650 mil, totalizando 1,135 milhão de novos engenheiros formados entre 2009 e 2022."

Finalizando, minhas analogias e lucubrações baratas, tenho a mais absoluta certeza, que a universidade brasileira, de modo geral, precisa repensar seu papel, deixar de executar um pensamento meramente acadêmico, e perceber que ela até pode ser uma ilha de excelência, porém, é cercada de gente da sociedade por todos os lados, é essa gente que banca essas universidades, e precisa muito que ela diga a que veio, pois custam os olhos da cara, é gerida por uma elite, que forma uma elite, voltada completamente para a classe que manda neste pais.  Existem dentro delas, “algumas raras exceções” – que não chegam a fazer a diferença que a sociedade precisa urgentemente.

Nota: após fechar essa matéria, minha sobrinha enviou o link da UNICAMP, com todas as planilhas de custos - quem se interessar - clique aqui



6 comentários:

Marlene disse...

Olá Paulo,
Há uns dez anos que procuro esta resposta. Não encontro nenhuma resposta. E o pior é que somos nós que pagamos estas contas. Será que já não é hora de sabermos?
Marlene

Paulo Cavalcanti disse...

Pois é Marlene, acho que essa caixa preta, precisa ser aberta em nome da transparência, uma vez que parece que estamos num processo irreversível, de novos valores, novos paradigmas. abs

Anônimo disse...

Obrigado pelas informações. Muita coragem a sua.

Unknown disse...

Sou estudante da Unicamp e descordo de como os dados são colocados, 42 mil reais por ano, dá 3,5 por mês, para formar alguém em uma universidade de altíssimo nível, onde quase metade desse valor pode ser convertido em bolsas, desde moradia, alimentação e trabalho (onde o aluno presta serviços para o campus). Ou seja, o restante pode ser convertido em outros benefícios que a faculdade pode prestar, como passeios acadêmicos, ônibus intercampi que vai de Limeira- Campinas, Campinas-Limeira todo dia, mesmo em férias, beneficiando os estudantes dos campus da FCA e FT a trabalharem em Campinas, bem como ter mais acesso a Barão.
Em retorno a sociedade, grande parte dos alunos das faculdades publicas, se mudam de suas cidades natais para estudar, com a Unicamp não é diferente, Trazendo muitos estudantes para a região e movimentando a economia local, valorizando bairros regionais, tanto em Barão quanto Limeira e Piracicaba que tem a faculdade de Odontologia da Unicamp.
Existem umas coisas também chamadas empresas juniores, que a todo momento realizam e promovem eventos sociais ou ações sociais, beneficiando as cidades e instituições carentes localizadas nelas, empresa júnior essa que não é remunerada e provê experiencia profissional. Além claro de centros acadêmicos e algumas atléticas que também promove debates sociais e as mesmas ações.
Paulo, você chegou a ver a porcentagem dos que saem pro exterior e não voltam? É culpa dos alunos que as oportunidades lá fora são mais proveitosas do que no próprio país? Devemos cobrar quem realmente deve proporcionar isso, que são os que elegemos ou tentamos eleger. É a mesma historia que falar q quem estava errada num caso de estupro era a mulher.
Para finalizar um ultimo pensamento, é melhor alguém preparado profissionalmente que pode melhorar as empresas do país, virar próximos governantes entre outras muitas coisas q por tabela refletirão na sociedade num longo prazo por 3,5mil reais por mês ou continuar com essa economia pífia que está hoje?

Espero que essas reflexões façam algum sentido para o autor, abraços.

Anônimo disse...

Concordo com alguns questionamentos colocados, mas na Unicamp enquanto o aluno não cumprir integralmente os seus créditos ele não pode participar da colação de grau. Esses 15% até existem, mas eles não participarão da colação de grau que assistiu.

Paulo Cavalcanti disse...

Creio que existem várias vertentes de pensamento neste quesito. A sua forma de analisar tb não está errada, mas ela visa somente o mercado, do ponto de vista do capital e retorno. Minha abordagem na exigência de contra-partida para a comunidade, para a sociedade enquanto um todo. Afinal, somos nós todos, eu, vc e a sociedade, que através de nossos impostos, bancamos tudo isso (só para se ater a este exemplo). Esse debate é amplo, complexo, e que sucessivos governos, nunca quiseram e não querem faze-lo. Porém, enquanto a sociedade em geral, ficar em sua apatia costumeira, ficaremos sempre à margem disso tudo, somente pagando as contas. Abs